4º Conto/ Destruição Equivocada, escrito em 2013

5º Conto/ Do beco dos zumbis A Casa Nova Esperança, escrito em 2013

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

5º Conto/ Do beco dos zumbis A Casa Nova Esperança / Capítulo 1

Maria Cristine acordou novamente suada, lençóis molhados pelo suor abundante. Olhou no relógio era 01h30min da manhã. O mesmo horário que acordara da sua última noite em que passara seis meses internada num hospital psiquiátrico, para desintoxicação do organismo. Ficou, três anos na rua, usando todo tipo de droga. Roubando para comprar a droga, sendo estuprada, vagando de um lado para outro numa rua sem saída, onde todos lá eram viciados que nem ela.
Teve este pensamento ao olhar no relógio, e estas tristes e amargas lembranças, vieram a sua mente em segundos, passando a ter um mal estar horrível. Fizera o tratamento direito, cooperara bastante, queria de fato uma nova chance, sentia-se limpa de novo, mas ao voltar para casa, recomeçaram os calafrios que sentia quando ficava sem as drogas.
Tinha 45 anos, mas parecia ter bem mais de 60... O uso dos entorpecentes, noites e noites sem sono, a vida na rua, sem alimentação, frio, calor, abusada sexualmente, fez com que se tornasse uma sombra da menina que foi um dia, bonita.
Perdeu quase todos os dentes, ficando somente os dois dianteiros, na arcada superior, e estes estavam podres, perto de cair também. Lábio rachado e ressequido, cabelo ralo e curto, a pele bastante queimada de sol, devido à exposição solar o dia inteiro. Poderia dizer que era uma mendiga, uma moradora de rua desde que nascera. Devido aos abusos sexuais, tivera engravidado diversas vezes, mas com as drogas, logo nos primeiros meses de gestação, tinha abortos espontâneos em meio à via pública, sangrando às vezes sem parar, e ali ficava o feto, ao meio fio, como se fosse uma sujeira em meio à multidão do beco dos zumbis, sim, era assim, conhecida, aquela rua sem saída pelos populares, moradores ao redor daquela rua. Todos, vizinhos, comerciantes, policiais, traficantes, apelidaram aquela viela sem saída pelo triste nome de beco dos zumbis. No fundo e na forma também era como estes tristes irmãos se pareciam, zumbis, andando de um lado pra outro, completamente dementados, viciados, esquecidos por tudo e por todos.
Maria Cristine na cama, agora sentada, começou a chorar, lembrando deste período que passara naquele beco triste," no meio" do centro da cidade de São Paulo, mas que parecia estar isolado de tudo, pois quase todos evitavam passar ao lado daquele lugar, o máximo que podiam, pois ali também, sentia-se um odor insuportável...
Depois que teve alta do hospital, continuaram as medicações em casa, as mesmas que tomara quando internada.
Os remédios aliviavam muito, os sintomas da abstinência, mas ainda sentia tremores, calafrios, suores noturnos, pesadelos, diarreia e outros sintomas ruins.
Ficou pensando como seria sua vida dali para frente, conseguiria voltar a ser uma pessoa normal? Voltaria a trabalhar? A estudar? Conseguiria sair de casa sozinha, sem medo de uma recaída? E estes pensamentos, povoaram a mente de Maria Cristine, durante toda a madrugada, até que olhou pela janela e os primeiros raios de sol começaram a entrar pela fresta da janela, denunciando que mais um dia estava começando, o primeiro dia fora do hospital que teria que recomeçar sua vida, sem as drogas. Estava agitada, nervosa, ansiosa, mas resolveu deitar novamente, para ver se conseguia dormir mais um pouco.
Era 10h00hs, quando a empregada da casa entrou no quarto de Maria Cristine, trazendo uma bandeja com o desjejum e os dois remédios que deveria tomar logo pela manhã.
Os horários deveriam ser seguidos à risca, o tratamento rígido e com boa alimentação, para recuperar o peso e a saúde que perdera, nos últimos tempos.
Ao chamado de Cíntia a empregada da família, Maria Cristine, relutou um pouco em despertar, mas sentou na cama para se alimentar e tomar os remédios.
Logo após terminar, entrou no chuveiro pra tomar um banho. Ficou pensando, o que faria naquele dia, como iria se distrair. Pensou em ficar na biblioteca e ler algum livro. Quando internada recebeu vários livros de autoajuda, livros espiritualistas, queria agora ler o que não conseguira no hospital.
Desceu até a cozinha, para se informar com Cíntia, onde se encontrava seu pai e seu irmão. Os dois estavam no trabalho, deixando recado para que se Maria Cristine, precisa-se de algo era para ligar e contata-los.
Pegou um copo d água e foi à biblioteca da casa, que ficava, junto à sala, e lá pegou o livro. - Leu bastante, devorou um capítulo atrás do outro, só sendo interrompida pela fome, quando olhou no relógio e viu ser quase 13h00hs resolveu ir almoçar. Depois do almoço, mais duas medicações tomou. - Como não tinha dormido muito bem a noite resolveu, tirar um cochilo na sala de estar. Deitou e logo adormeceu.
Sonhou com sua mãe, as duas ao se verem se abraçaram fortemente, saudosas. A mãe de Maria Cristine tinha desencarnado há cinco anos, e isso foi um dos motivos pra que ela começasse a se drogar.
Todo calvário de Maria Cristine, foi acompanhado por sua mãe, que tentava ajuda-la de todas as formas, só conseguindo, quando a filha cansada, numa noite começou a chorar e pensar na mãe. Conseguiu ai uma brecha, e intuiu, marido e filho para que ajudassem à filha.
Agora as duas juntas no plano espiritual conversavam, abraçadas e emocionadas.
Leila a mãe acariciava o rosto da filha, falando que nunca ela esteve só, nem nos piores momentos no beco... E que agora mais equilibrada, estaria ao seu lado, facilitando a ajuda, mas que precisava vencer esta nova etapa com coragem, pois teria vontade ainda de usar entorpecentes, que irmãos ligados a ela por outras vidas, investiriam na sua vontade para se drogar novamente, e que tivesse força e coragem, que ela sua mãe estaria ao seu lado, mas precisava vencer um sentimento negativo que vinha sendo sua derrocada, há séculos.- A insegurança.
 Ouvia tudo em silêncio, e depois pediu para Leila, que não a desamparasse e que a ajudasse nos momentos de crise.

 Maria despertou, com Cíntia chamando por ela, deveria tomar mais uma refeição antes do jantar e mais dois comprimidos. Lembrou vagamente o sonho que tivera ao lado da mãe, e ao mesmo tempo em que sentiu saudades, e alegria, uma ponta de angústia, veio em encontro ao seu peito.

Capítulo 2

No dia seguinte, decidiu ir até a padaria, junto com Cíntia. Fazia tempo que não andava pelas ruas do bairro onde morava, além disso, queria respirar ar puro, sentir que estava viva novamente.
Na padaria, logo de manhã, os funcionários reconheceram Maria Cristine e a cumprimentaram surpresos. Ela correspondeu aos cumprimentos.
No caminho de volta decidiu, sentar num banco da praça que ficava uma quadra antes da sua casa. A empregada sentou-se com ela, apesar do serviço, tinha tempo, pois os patrões, não tomavam café em casa.
Ficaram as duas sentadas, conversando, e de repente Maria sentiu um mal estar muito grande, falta de ar, e se não tivesse sentada teria caído. Cíntia pegou em seu braço, perguntando o que se passava com ela... Na verdade dois Espíritos que eram seus companheiros de delírios no beco estavam a sua espera, e resolveram envolvê-la com suas má vibrações, e pensamentos ruins, de pessimismo. Sentiu enorme vontade de sair correndo e amparada por Cíntia, retornaram para casa.
Ainda mal, deitou no sofá enquanto a amiga e funcionária buscava um copo de leite e pão com manteiga.
Pensou na mãe, e em segundos, Esta, estava ao lado da filha, afastando o dois infelizes para fora da casa.
Sentiu um alívio imediato, e sentiu a presença da mãe, derramando algumas lágrimas...


Capítulo 3

Os meses passaram, Maria, sentia-se bem fisicamente, tinha recuperado o peso, a saúde, colocou uma prótese dentária, arrumou os cabelos, estava bem novamente, mas sentia ainda um enorme vazio por dentro, não sabia como explicar, sentia-se incompleta, nula, inútil, apesar dos tratamentos médicos que prosseguiam...
Oito meses depois de ter voltado para casa, Maria se arrumou e resolveu fazer o primeiro passeio, sozinha, sem a companhia de alguém. Pegou a bolsa, e rapidamente chamou um táxi e pediu ao motorista, seguir para um shopping da cidade.
Desceu do carro e já no estacionamento, ficou pensando para onde ir... Entrar ou sair? Estava com medo de tudo, e súbito pânico se apoderou dela, ascendeu um cigarro, nervosamente, e resolveu sair às ruas novamente. Andou, andou sem rumo, até se cansar, e como já estava escurecendo, lembrou que na pressa saiu de casa sem levar as medicações, e isso a fez tremer sobre maneira.
Foi até um ponto de táxi, e quando chegou em casa, já passava das 20h00hs. Todos estavam aflitos a sua espera, também na pressa deixou o celular no quarto, - acalmou a todos, dizendo que só foi dar uma volta. Apesar do susto, e vendo que ela estava bem, a família se tranquilizou. Maria logo que chegou tomou as medicações, jantou e foi tomar um banho. Já em seu quarto, mais tranquila e mais refeita, abriu uma caixa com antigos álbuns de fotografias, foi vendo uma por uma... Até que pegou uma foto e se viu anos atrás dentro de um navio, quando fizera um cruzeiro por toda a costa brasileira, ao seu lado um rapaz chamado Mauro, rapaz rico que lhe apresentou cocaína pela primeira vez, justamente naquela viagem... Olhou com ódio àquela foto, e desejou que o rapaz estivesse morto. Com esse pensamento atraiu o Espírito de Mauro que já havia desencarnado, assassinado por um traficante, a quem devia quantia grande de dinheiro e não pagara, apesar de ser rico... Ali agora diante de Maria Cristine, ele sentia-se confuso não sabia muito que se passava com ele, hora achava que se encontrava sonhando, ora via-se, perseguido por entidades sujas e esfarrapadas, na verdade eram Espíritos perturbados que haviam adquirido o vicio através da sua lábia, e tinham desencarnado com o uso dos entorpecentes. Mas agora na casa de Maria, apesar de não saber como fora parar ali, sentia-se um pouco aliviado, saindo daquele lugar escuro, fétido em que tinha ido “morar”, sem lembrar como, e livre dos seus perseguidores...
Sentiu a onda de ódio que Maria lhe enviava e tentou se aproximar dela, mas foi jogado contra a parede, por uma força invisível, era Leila mãe de Maria.
Leila se fez visível a ele, que ficou num canto encolhido, com medo terrível. A mãe de Maria disse: -“Mauro, chega de perturbar minha filha, ela passou por fase terrível, pelas drogas e ainda anda insegura, mesmo se tratando. Você já sofreu bastante também, apesar dos teus erros, é hora de recomeçar, e ser ajudado, já não está mais na Terra, há mais de três anos e ainda não se deu conta disso”. Mauro ao ouvir aquilo lembrou então dos tiros que tomou do traficante, no bar que estava, e depois tudo rodou na sua frente, sua infância, sua adolescência, e as perseguições, os sangramentos, as dores, o frio, que parecia não ter fim, voltou tudo, caiu em choro compulsivo, e ainda escutou Leila dizer: - “Seu pai Roberto está aqui, para te levar, para ser ajudado”- e olhando pro lado viu, uma luz azul, transformar-se na figura de seu pai querido. O velho venerável, sorriu triste, depositou um beijo na cabeça do filho, que adormecido, foi levado pelo pai, que antes de partir, endereçou um sorriso para Leila, e desapareceu...


Capítulo 4

Maria estava descontrolada, tremia e sentia que não aguentaria mais um minuto sequer naquela situação. Recebeu telefonema de uma amiga convidando-a para seu aniversário, que seria comemorado em um bar perto de sua casa. Ficou feliz, se vestiu bem, se maquiou pegou a bolsa, e na hora que ia sair, seu pai perguntou aonde iria. Nervosa, não entrava muito em detalhes com a família, há muito tempo. Disse secamente: - “Vou a um aniversário” e fechou a porta.
Seu pai sentia-se impotente, sentia-se triste, e amargurado.
Maria chegou ao bar e depois de muito tempo sem ver a turma, foi abraçando um a um, todos estavam felizes em revê-la, mas todos iludidos, também usavam drogas.
Pediu uma cerveja, e foi à primeira de várias que tomou naquela noite, ria alto, falava bastante, e pensava que aquela sim era vida, divertimento. Alta madrugada, 04h00 hs da madrugada, altamente alcoolizada, despediu-se de todos e junto com duas amigas, andavam no meio da rua, cantando, gritando, quando um carro com três rapazes, buzinou e “mexeu” com as três, ofereceu-lhes carona, - as mulheres rindo alto, aceitaram e no carro, a droga rolou solta...
 Um dos homens era Mateus antigo traficante, muito conhecido na região, Maria apesar de altamente embriagada, não aceitou cocaína, nem maconha, apesar de uma “vontade louca”, tinha medo, quando olhava para Mateus, tinha forte impressão que o conhecia... Quando este, disse para o amigo que dirigia, “tocar para o beco dos zumbis”, Maria quase perdeu os sentidos, e mesmo o carro em movimento, abriu a porta e se jogou para fora, caindo violentamente, na rua, tendo fratura exposta na perna e ombro. O carro derrapou, deu ré e vendo o estado da moça, todos gritaram para o rapaz do volante acelerar que aquilo poderia trazer problemas para eles. Maria Cristine ficou em meio à rua, com fraturas, desmaiada, quando pessoas passando, a avistaram e ligaram para o corpo de bombeiros.


Capítulo 5

Dois anos se passaram desde os últimos acontecimentos...
Maria Cristine ficou com sequelas na perna e ombro, andava de muletas, mas depois de tudo, nunca mais colocou nenhuma gota de álcool na boca, e nunca mais usou drogas. Decidiu levar uma vida saudável para sempre, voltou a trabalhar com o pai, em seu escritório, e uma vez por mês colaborava com um grupo fraternal que distribuía sopa aos moradores de rua.
Sempre lembrava do beco dos zumbis, e um dia pediu ao grupo, para ir até lá, para ver o que poderia para aqueles irmãos sofridos, com quem conviveu três anos de sua vida.
Começaram a abordar um por um no beco, mas poucos queriam ajuda. Os que tinham vontade de realmente mudar eram encaminhados à instituição chamada Casa Nova Esperança, instituição fundada pelo grupo, em casarão antigo e abandonado, e que agora cuidava de dependentes químicos gratuitamente, irmãos abnegados que dispunham de seu tempo, um pouco em favor do semelhante, em tristes condições.



Capítulo 6

Pouco a pouco o beco dos zumbis foi esvaziando-se, muitos por aceitarem ajuda e serem recolhidos, outros por morrerem a míngua, viciados, e aquele local onde antes se via tristeza, agora por obra do grupo, que comandava várias ordens de serviço, a ajudar aqueles irmãos, conseguiram construir uma área de lazer, para os irmãos que se recuperavam. A Casa Nova Esperança, dava para os fundos do antigo beco, e foi autorizado pelo poder público a anexar aquele espaço a Casa.
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Vinte anos se passaram, Maria Cristine contava com 67 anos e administrava a Casa Nova Esperança, com ajuda de muitas pessoas, de sua amiga e antiga empregada Cíntia, seu irmão, e muitos outros trabalhadores e voluntários...
No plano astral em cima da casa, ficava um pronto socorro espiritual, onde alguns irmãos que desencarnavam na rua, eram ajudados e levados para lá. Seu pai que havia desencarnado, junto a Leila sua mãe e outros trabalhadores incansáveis ajudavam nos dois planos da Casa Nova Esperança.
Maria pensava em tudo que tinha visto e vivido, e agora no gabinete da administração, olhava para o fundo da casa onde via irmãos cantando, outros jogando futebol, outros conversando, nem acreditava que aquele lugar já tinha sido aquele beco de tormentas e sofrimentos, onde todos antes rejeitavam e agora aquele espaço era chamado Espaço da Esperança, onde outrora era conhecido por beco dos zumbis, hoje era lugar de novas lutas, onde reinava flores, perfumes, harmonia e paz.- Sangue, estupros, drogas, sujeira, era passado ali, - no entanto pensava em quantos becos dos zumbis havia espalhados neste imenso país... O vento bateu de leve e fez com que uma rosa vermelha despedaça-se e caísse uma pétala em seu colo, aquele vermelho de flor e não de sangue. Sorriu, e derramou uma lágrima abençoando aquele chão que à caridade e as lutas transformaram de beco a esperança...


                                                                FIM


quinta-feira, 27 de junho de 2013

4º Conto / Destruição Equivocada


Crack, crack, crack...
Era o som mais ouvido por Wladson nos últimos dez anos- desde que deixou a casa dos pais, desaparecendo sem deixar pista alguma.
Foi aos 15 anos, hoje contava com 25, mas parecia ter 50, de tão destruído e corroído pela droga e por sofrimentos incalculáveis na vida da rua, sendo linchado, agredido durante todos estes anos de abandono de si mesmo.
A última lembrança que trazia da sua vida, era um caderno que não largava nunca, era a recordação de quando ainda era um estudante, tinha casa, comida, enfim um lar e amigos. Alias amigos... Que saudades dos amigos da infância, época em que faziam planos de ser alguém de respeito na vida social, profissional, sonhos infantes, onde se reuniam, depois da escola, e um a um falava o que seria quando adulto.
Um queria ser bombeiro, outro escritor, outro baterista de uma banda de rock, outro jogador de futebol... Wladson não sabia o que queria ser apenas sonhava em casar com Inês, sua primeira namorada e também queria ter uma filha linda... Já tinha até o nome em sua cabeça, Daniele, sim sua filha se chamaria Daniele.
Só conseguia ter estas parcas lembranças, quando olhava para aquele inseparável caderno, prova de que um dia foi feliz e teve paz. Mas só olhava para o caderno, a última vez que o abriu, nem se lembrava mais, tinha medo de ver o que escrevera, quando ainda levava uma vida normal.
Adotou como “lar”, um prédio destruído e abandonando, que um dia foi a sede de um hospital que fora a falência, por gestão fraudulenta.
No meio do lixo, seringas, cachimbos, dejetos humanos e animais, ratos e insetos, moscas e baratas. Depois de uma semana e meia sem dormir, desmaiava, e dormia por algumas horas somente. E quando acordava lá estava ele todo urinado, mas com seu inseparável caderno, que ao dormir escondia num monte de lixo, para ninguém pegar.
Os amigos de infortúnio, sempre perguntavam o que tinha naquele caderno,- era uma curiosidade quase geral... Ele apenas afirmava que levaria para o túmulo junto de si, pois quando fosse enterrado ainda que como indigente aquele caderno, seria para falar quem tivera sido no passado.
Um dia Wladson, resolveu sair para comer algo no centro da cidade, coisa que não fazia alguns dias, tinha algumas moedas,- que não se sabe por que não usara pra comprar droga. Paulo André dono do boteco, sempre tinha um pedaço de pão e café com leite, que servia a Wladson, quando este ia a seu estabelecimento. Paulo fazia questão de aceitar o pagamento do lanche, mesmo sendo parcas moedas, pois pensava que cobrando, Wladson não gastaria na compra do crack.
Paulo André comerciante antigo, com seu pequeno negócio dele tirava seu sustento, eram poucos os rendimentos, mas como era sozinho na vida, vivia relativamente bem, e como alma nobre que era, ajudava o próximo como podia, doando do que tinha e do que era.
Tinha perdido esposa e filhos num acidente de ônibus que ia para o interior. Para não enlouquecer, trabalhava, ajudava quem precisasse dentro das suas limitações e pensava que além do pão que servia, sempre doava seu sorriso a todos, principalmente a Wladson, que quando recebia o sorriso franco do Sr. Paulo André, chorava emocionado, pois aquele sorriso, mais que o pão com café, era  bálsamo para suas dores morais. Muitos o olhavam com nojo, Paulo nunca...
Paulo foi escolhido por Wladson, a ler o caderno antes de colocar junto ao caixão.
Um dia numa batida policial, que entrara no prédio abandonado, policiais que faziam parte de um grupo de extermínio, entraram com roupas especiais e rostos cobertos, atirando em todos os viciados que lá estavam naquela noite de chuva e frio. Todos morreram menos Wladson que apesar de ser baleado,- foi  atingido na perna.
Esperou os policias ir embora para levantar com estrema dificuldade, há essas horas uma chuva torrencial caia na cidade. Saiu do prédio, totalmente desorientado, e caminhou, caminhou, caminhou até perder as forças e depois de uma batida na porta do boteco do seu amigo Paulo, desmaiou, por perda de sangue, e por estar completamente fraco, desnutrido e com o organismo muito intoxicado.
Paulo André que morava em cima do seu comércio, escutando o barulho, olhou pela janela e só conseguia ver uma perna esticada na calçada do seu bar. Desceu rapidamente, e viu que era Wladson. Abriu o portão e puxou-o para dentro.
Colocou a mão no pescoço de Wladson e verificou que tinha pulso, apesar de muito fraco. Acionou o resgate e a polícia.
Vinte e cinco minutos, depois, chegaram à unidade dos bombeiros, prestaram os primeiros socorros, colheram informações e partiram para o hospital. A polícia interroga Paulo, e o mesmo explica o que aconteceu. Dizendo que conhecia a vítima e que o mesmo era usuário de drogas. Com esta informação os dois policiais que lá estavam se encararam trocando um olhar de desdém, como fato rotineiro. Assim sendo foram embora.
Paulo ao subir de novo para sua casa, tirou do bolso o caderno de Wladson, que tinha escondido da polícia, para que eles não o levassem. Teve ímpetos de abrir o caderno, mas este estava envolvido com vários elásticos e fitas adesivas, apesar da curiosidade, preferiu guarda-lo.
No dia seguinte logo pela manhã, foi até a Santa Casa, ver se Wladson lá se encontrava,- não tinha o nome completo do amigo. A enfermeira foi chamada, e perguntou as características físicas do paciente, Wladson o descreveu e a moça logo o reconheceu.
Explicou que o paciente se encontrava sedado, pelos ferimentos e pelo seu estado debilitado.
Como desconhecia a família do amigo, deixou seu telefone para ser avisado, pelo hospital sobre qualquer coisa.
Três dias depois Paulo é avisado que o estado do amigo era grave, pois a infecção não estava cedendo. Foi autorizado a fazer uma visita. Ao entrar no quarto viu o amigo com expressão de sofrimento, Paulo por instinto pegou na mão de Wladson que tremia e suava frio...
Wladson com uma lágrima que escorria pela face magra e sofrida, abriu os olhos e deu um pequeno sorriso ao único amigo sincero que conheceu na rua, e que apesar de tudo sempre o tratou com carinho.
Wladson com estremada sofreguidão, deu o endereço da casa de seus pais, que não via a uma década desde que saíra de casa, e pediu ao amigo que fosse até lá, pra que ele pudesse se despedir dos genitores.
Paulo vendo que o relógio corria e algo dizia que o pobre amigo não tardaria a partir para o plano astral, pegou o endereço marcado e para lá se dirigiu.
Era 15h00hs, quando chegou ao endereço, tocou a campainha e esperou... A porta se abriu e uma mulher de aproximadamente 45 anos, apareceu.- Paulo foi direto ao assunto e perguntou se ali era casa de Wladson, a mulher quase desfaleceu ao ouvir o nome do filho,- lívida, perguntou do que se tratava -. Paulo explicou tudo, desde quando conheceu Wladson até o momento da internação.- Maria Antônia mandou o senhor esperar um momento, para pegar seus documentos e os documentos do filho que sempre guardou, assim como sempre manteve seu quarto, um dia esperando seu retorno.
Os dois chegaram ao hospital, Maria Antônia, tremia de medo e emoção de reencontrar o filho.
Paulo é o primeiro a entrar, o amigo respirava com dificuldade, fez um sinal para que Maria Antônia entrasse, quando apareceu na porta do quarto, correu ao leito do filho amado, o abraçou e começou a chorar, lágrima, tantos anos, represadas.
O Mentor de Wladson o sustentava para que pudesse falar com a mãe, o que lhe ia à alma, conversaram muito e o filho pediu perdão à mãe, por tudo, ficou sabendo que seu pai tinha desencarnado pouco tempo depois de ele ter saído de casa, Wladson se entristeceu, e mentalmente pediu perdão ao seu pai, mal sabia ele que o próprio lá se encontrava, e que há muitos anos tentava ajudar o filho, mesmo em Espírito.
Dois dias depois Wladson fecha os olhos para o mundo físico...
No velório somente a mãe e o amigo Paulo André, este com o caderno, entregou-o, a mãe e explicou o que significava para seu filho. Maria Antônia, tirando tudo o que envolvia o caderno conseguiu abrir, e juntos começaram a folheá-lo. Era um caderno escolar, com anotações antigas de várias matérias, muito desenhos... Mas nas últimas páginas tinha um texto escrito em caneta bem forte, que dizia:

Hoje 20 de setembro de 2000

Descobri que não vou mais ser feliz
Não quero mais fazer planos
Vai ser impossível novamente sorrir
Não quero mais ser feliz
E eu que amava a vida
Tantos planos fiz.
Agora tudo terminou
Quem eu amava, me traiu.
Sai desesperado atrás dela
Encontrei a traidora feliz,
Com outro
Corri, corri, corri,
Por tanto tempo,
Que não sei aonde fui parar,
Não sei onde estou.
Morri por você...

E junto uma foto de uma moça, atrás da mesma, escrito:- Para Wladson com amor, Inês.

Paulo ao ver a foto começou a chorar, reconheceu Inês de pronto, era sua sobrinha, que já estava casada e com filhos.
Ao narrar isto a Maria Antonia, a mesma chorava muito e pedia que Jesus perdoasse seu filho infeliz, 
De fato a dor foi tão grande que Wladson, não agüentou e se afundou nas drogas.
Paulo, Tio de Inês, Maria Antonia, mãe de Wladson, se abraçaram e fizeram sentida prece, para que o infeliz se recuperasse.
Depositou o caderno na urna do filho e o mesmo foi enterrado.
Wladson depois de dois anos ainda recuperava-se num Pronto Socorro Espiritual, situado na Crosta, completamente arrependido, e todo dia recebia as preces de Paulo e de sua mãe, além de uma vez por semana receber a visita de seu pai, e de uma linda moça que apesar de não conhece - lá, sentia carinho enorme por ela. (na verdade era Daniele, sim sua Daniele, Espírito que estava destinado a nascer como sua filha, se não tivesse interrompido sua vida, a filha que sempre sonhara em ter na vida... (poderia ter nascido como filha de Inês com seu marido, mas preferiu acompanhar e ajudar Wladson) Ali cuidava dele no silêncio e na renúncia de que só o amor verdadeiro consegue).

Desespero, raiva, ódio, ciúme, traição, com quanto que tudo isso doa, enfrentar de cara limpa sempre, pois nada nos acontece por acaso. Tudo são provas e expiações do passado, e Deus não nos dá cruz mais pesada que as nossas forças não possam suportar.









                                                                 FIM